3 historias de 3 parágrafos

Passeio de Cão

Olha fixamente para o computador. Está alí, parecem horas. O cabelo desgrenhado espelha a confusão da sua cabeça. As olheiras revelam as noites mal dormidas. A respiração soa ansiosa. Anda às voltas sem sair da cadeira. Finalmente, dá um murro na mesa: “Estou farto disto. Estou farto desta vida. Um dia destes, mando tudo às urtigas.“

O cão empoleira-se na cadeira a chamar por ele. São horas do passeio. O cão parece não ter considerações sobre o seu estado de espírito.

“A sério?! Que seca… não me apetece nada… este cão rouba-me horas…” O cão insiste e arranha a cadeira. Finalmente, cede e vai passear o cão. Sai em passo apressado, a reclamar de forma impreceptível.

A cada passo que dá, a respiração torna-se mais lenta e suave, os ombros descaem, ergue-se a cabeça, olha para o horizonte. Repara nos matizes de cores do pôr do sol. O cão puxa-o para o meio das árvores num jardim. Solta o cão que se vira para ele e, com um latido, o convida para brincar.


Natal Atrasado

Ainda hesitou. Hesitou em comprar o bilhete de comboio, hesitou entrar nele, hesitou em sair na estação certa. Hesitou até ficar à porta quando tocou à campaínha. Estava atrasado para o jantar de Natal. De certeza que já não contavam com ele há muito.

Há 3 anos ele saiu a meio para nunca mais voltar. Foi uma reacção impulsiva, três segundos, que se tornara três dias, três semanas, três meses, três anos. Quanto mais tempo passava mais facil era deixar passar. Até que um dia encontrou uma fotografia da mãe consigo ao colo, sentiu um aperto no coração. Nesse mesmo momento comprou o bilhete.

Foi o tio que lhe abriu a porta, olhos esbugalhados, sem conseguir dizer palavra. Fez-lhe sinal para entrar e seguiu-o em direcção à sala de jantar. Vozes, gargalhadas, tinir dos copos, talheres e pratos. Ele ficou na soleira da porta, imóvel a observar, e por momentos ninguém deu por ele. Até que um a um todos pararam, boquiabertos, a olhar para ele. A cadeira da mãe caiu num estrondo quando ela se levantou de rompante, correu para ele, abraçou-o, abafando o silêncio que tinha inundado a sala de jantar. Lentamente fechou os olhos e abriu os braços. Finalmente cedeu e deixou que as lágrimas escorressem. Alguém gritou de alegria “Miguel! Miguel!” e um a um, quase todos, aproximam-se para se juntarem ao abraço, uns com uma caricia, outros com uma palmada carinhosa nas costas. Todos menos um, José, o irmão que jurou nunca mais perdoar o abandono.


Morte

Fez 55 anos. Os mesmos anos em que o seu pai e o avô morreram.
Foi o melhor ano da sua vida.

Dezenas de amigos estavam à sua espera. Ele não sabia o que o esperava quando ligou a dizer que estava atrasado e que o GPS indicava 17 min até casa. A mulher impenetrável suspirou e assegurou que estava tudo bem, que, quando chegasse, aqueceria a comida.

Quando ele chegou, colocou a chave na porta e ouviu um “pling”. “Ah, comidinha quente!” Mas não cheirava bem; cheirava a borracha, o que o fez parar. Nem um segundo passou quando apanhou com um clarão de um flash e ouviu gritos de alegria e celebração. Praticamente cego, rendeu-se àquilo a que pensava que tinha escapado - uma festa de aniversário dos seus 55 anos. Quando abriu os olhos, viu um balão gigante que gritava 55. Não se conteve e uma lagrima escorreu. 55: ninguém fazia ideia do que isso significava.

No dia seguinte, acordou na sua cama e suspirou de alívio, a cabeça a latejar e um aperto no estômago. O balão murcho com o número 55. Lembra-se bem, foi há 27 anos quando foi a correr para apanhar o ultimo suspiro do seu pai. Nesse momento, cerrou os punhos e disse para quem quisesse ouvir: aquele seria o melhor ano da sua vida.