Amarfanhado

Isto não é um conto.

É o relato do nosso encontro tal como me contaste.
Estou sentado, mas as pernas não param. As mãos transpiram, ficam húmidas. Sinto as mandíbulas presas, rígidas.
Estava à tua espera. Quando dei por ti, já estavas sentado. Inclino-me para trás e abro os olhos. Recomponho-me. Preparo-me para o embate.

Agora faz o que te digo. Pega numa folha branca. Daquelas que nos assustam. Que nos sugam qual buraco negro. Tão virgens que nos deixam desconcertados. Tão puras que nos queimam.
Por momentos pensamos que são o espelho do nosso vazio. Até transformarmos o ato numa luta, numa escultura em que cravamos, com a caneta, aquela pele imaculada.
Mas chega de metáforas e rodriguinhos. Eu sei que não és facilmente impressionável.

Pega na folha. Divide-a ao meio. Vou-te mostrar um conto e quero que tires notas.

Agarra bem a caneta, que ela vai escorregar. Não a apertes tanto. Se fosse um lápis, já teria sido decapitado pela pressão. Tens a planta dos pés esmagada contra o chão, os gémeos tesos, a mão esquerda fincada na perna, as mandíbulas cerradas, os olhos esbugalhados, secos.

Cada vez que leio este conto, imagino-te como uma pessoa diferente. Já te imaginei um homem resmungão que envelheceu mal, uma miúda traquina e ingénua, um traste invejoso e armante, e uma mulher regrada, com medo do seu poder.
Gosto em particular das crianças que tropeçam no meu conto. Não têm medo. Não têm expectativas, nem modelos, nem caixas, nem preocupação em arrumar ou avaliar. Não lhes faço frente e isso liberta-nos aos dois. Quando deixam de ser, é vê-las passar: não ficam, não apreciam, não brincam. Julgam e seguem ou seguem os cegos.
Tu não.

Mas quem és tu? Não digas. Escreve o teu nome e a tua profissão no topo da página.

Eu apresentava-me, mas não me posso antecipar à escrita para não a condicionar. Ela merece que eu não a corrompa.

Vamos, agarra-te à folha que dividiste ao meio. Preciso que estejas atento às minhas instruções. Do lado esquerdo vais escrever o que o personagem sente. Do lado direito, aquilo que tu sentes.

Inspira. Vamos.

"Acordo inconsciente.
Um silvar de água a correr pelos canos entra-me na cabeça.
Com os olhos ainda fechados, tento descortinar de onde vem. Um autoclismo a encher, uma torneira aberta por trás da parede.
O som acorda uma dor de cabeça. Cerro o sobrolho. Hesito em abrir os olhos. Por entre as pálpebras percebo que não está escuro. Há sombras e raios de luz que entram e dançam.

Procrastino o momento de encarar a realidade. Quero virar-lhe as costas. Viro-me na cama.
É então que um desconforto agudo sobe pelo braço esquerdo. A mão direita apalpa e procura a dor. Sinto algo pegajoso mas seco. A mão é repelida com asco. Não consigo precisar. Os olhos recusam-se a abrir. A mão ganha coragem e avança agora com mais cautela. Sinto um plástico, uma película aderente, que está enrolada no antebraço.
Não faço ideia de onde vem nem por que está enrolada no braço. A estranheza é suficiente para que os olhos descolem. Queria adiar o momento, mas aquela coisa no braço força-me a encarar a luz.
Começo a desenrolar a película que envolve o braço. Com um esgar, tomo de novo consciência da dor aguda. Continuo a desenrolar cuidadosamente, descolando o plástico peganhento, volta após volta.
Sinto um calafrio e um aperto no estômago.
Os olhos preguiçosos abrem-se num salto. Vejo-a. Tapo-a. O corpo reage antes de eu conseguir pensar. Espreito de novo. Tapo-a mais uma vez. Não acredito no que estou a ver. Uma tatuagem apareceu no meu braço. É essa coisa que se esconde por trás daquele plástico peganhento. Não é possível! Não procuro a resposta, só imploro que seja um pesadelo.
Aperto o braço. Sinto dor. Aperto mais. E mais. Dor é a única coisa que quero sentir.
Enquanto encaro esta visão que me parece irreal, ouço uma voz suave, rouca e firme:
"É tua. Agora ama-a como uma filha"
Não fazia ideia de quem falava, muito menos o que dizia.
Volto a encará-la. Não consigo desviar o olhar dela. Uma moldura escavada na pele. Um convite."

Expira.

Vais avaliar. Eu queria apenas que lesses, sentisses, saboreasses.

Deixa-me contar-te. Esculpi estas palavras numa folha grossa. Martelei a caneta como se fosse um escopo. Fiquei com as mãos a tremer, os olhos cegos e a garganta seca.
Mas um dia, num ato de desespero, espetei a caneta na folha. Uma e outra vez até se partir e uma farpa se cravar na minha mão. Pingos de sangue mancharam a folha que já foi imaculada. A dor que senti não foi do corte. Chorei. Imóvel, incapaz de escrever outra palavra. Hoje. Ontem. Há 13 dias.

Estou obcecado pela tatuagem que espreita por trás daquela película pegajosa. Não me sai da cabeça. Já não o vejo, nem a ele nem ao braço. É ela apenas que ofusca o meu pensamento. Não sai, não se apaga. Acordo com ela. São 3 da manhã.

Cinco lanços de escadas levam-me ao sotão e são o fosso que me protege da realidade ruidosa. As janelas furtadas estão emperradas, não se abrem.
No início, empilhava chávenas de café e folhas amarfanhadas. Um dia descobri uma mancha de vinho. Noutro cheirou-me a queimado. Um dia, chantagiei a fome até concluir uma página. Desfaleci. Dei por mim perdido em círculos pelas ruas do bairro. Adormeci num banco de jardim. Os banhos de imersão dissolveram-me os ossos. Meditei até ouvir o coração. Deixei o telefone morrer. Dormi. Não dormi. Li poetas. Perdi peso. A pele perdeu vida. As olheiras ficaram. Estou seco.

Volto a ela, sempre a ela. É uma porta. Fechada.

E a ti, o que te acorda à noite e te deixou marcas para a vida? Quem ficou do outro lado?
Pega de novo na folha. A divisão ainda lá está. Escreve o seu nome de um lado e há quanto tempo do outro.

Eu também tenho um nome. Não o escrevi. 27 anos.
O tempo fechou a porta.

O nosso herói aprendeu a viver com ela fechada. Passaram anos. Há muito que tirou a película. A pele cicatrizou. A porta ficou fechada.

Eu sei. A história é minha, a ferida é minha, a porta é minha.
E agora é tua também. Escreveste um nome, pensaste no momento.

Eu mostrei-te uma ferida. Agora, olha para a folha. O que escreveste?
Tu dividiste uma folha e colocaste a minha ferida ao lado da tua.

Estás aí? Vem comigo. Sinto que é agora.

"Levanto-me e vou à procura da voz. Saio do quarto. Um corredor. Escuro. Húmido.
Ao fundo, uma luz. Silêncio. Não sei onde está a voz. Silêncio. Uma luz ao fundo chama-me. Ouço um zumbido. A luz vem de uma porta mal fechada. A Porta. Ando ando ando e não chego à porta. Já não há porta. Cerro os olhos. Já não sei onde estou. A porta continua a puxar por mim. Está mal fechada. Volto a ouvir a voz. Não percebo. Está atrás de mim. A Porta está à minha frente ao fundo. Vou para a porta ou para a voz. Fico parado. Não sei onde estou. Nunca soube. Náusea. A cabeça pesa. Não. Lateja. A porta. A porta. A porta não está fechada. A voz puxa-me para trás. Paralisado. Latejo. A porta. A voz. Caio. Rastejo. Não consigo avançar. Não consigo. Não."

Foda-se.

— FIM —